Era uma vez um burguês que gostava das coisas quadradas e bem ordenadas. Numa bela manhã destas de céu mais azul do que o azul do facebook postou uma imagem da escultura de Amílcar de Castro exposta no gramado do "Centro Cultural Amilcar de Castro". Ao que parece, queria mostrar para a população que ela está enferrujada, descuidada, como os bancos da estação. Caiu do cavalo. Um artista destes que Paraisópolis produz para relegar ao esquecimento, ao próprio caos, disse-lhe, com todo cuidado para não magoar aquela pobre alma, que um dos sentidos do trabalho escultório de Amilcar de Castro é justamente o de operar um retorno da obra à natureza, de abrir o gesto artístico ao gesto do tempo. Nascido em 6 de junho de 1920, em Paraisópolis, Amilcar de Castro e sua obra genial e mundialmente aclamada não tem nada a ver com a politicagem e com os jogos de poder que predominam em um certo Paraíso infernal e decadente. Aliás, quando tudo o mais for ruína as esculturas de Amilcar estarão de pé lembrando a efemeridade da burguesia, de suas construções, contas bancárias e, mais grave ainda, do homem, e da humanidade.
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quarta-feira, 5 de junho de 2019
Era uma vez um burguês que gostava das coisas quadradas e bem ordenadas. Numa bela manhã destas de céu mais azul do que o azul do facebook postou uma imagem da escultura de Amílcar de Castro exposta no gramado do "Centro Cultural Amilcar de Castro". Ao que parece, queria mostrar para a população que ela está enferrujada, descuidada, como os bancos da estação. Caiu do cavalo. Um artista destes que Paraisópolis produz para relegar ao esquecimento, ao próprio caos, disse-lhe, com todo cuidado para não magoar aquela pobre alma, que um dos sentidos do trabalho escultório de Amilcar de Castro é justamente o de operar um retorno da obra à natureza, de abrir o gesto artístico ao gesto do tempo. Nascido em 6 de junho de 1920, em Paraisópolis, Amilcar de Castro e sua obra genial e mundialmente aclamada não tem nada a ver com a politicagem e com os jogos de poder que predominam em um certo Paraíso infernal e decadente. Aliás, quando tudo o mais for ruína as esculturas de Amilcar estarão de pé lembrando a efemeridade da burguesia, de suas construções, contas bancárias e, mais grave ainda, do homem, e da humanidade.terça-feira, 16 de junho de 2015
:: O dia em que conheci Amilcar de Castro :::
Meu primeiro trabalho como jornalista foi naquele que muita gente considera como o principal e mais bem feito jornal que Paraisópolis já teve: a Folha da Serra, dirigido pela grande e saudosa Suely Gonçalves.
De leitor assíduo lá estava eu, numa destas tardes lentas e mornas da cidade, recebendo na redação que funcionava na Rua São José as pautas da próxima edição ...
Saúde, política, cultura, entrevistas, artigos de opinião, fiz de tudo um pouco.
Numa destas tardes de trabalho, Sula disse-me: - "você vai junto com a Comitiva de Paraisópolis na inauguração do ateliê de Amilcar de Castro em Nova Lima'.
& lá estava eu num lugar lindo, com muito verde, pássaros, sol e céu azul, com centenas de obras de Amilcar de Castro.
Afasto-me por um momento do pequeno grupo de paraisopolenses e caminho pelo ateliê de ferro e vidro, entro e saio de salas até que, de repente, presencio Amilcar de Castro no exato momento em que executa uma obra.
Que força, que potência! Algo muito forte atravessou a membrana da realidade. Algo que era real mas não existia na realidade do ato de criação.
Jamais esqueci daquele gesto preciso, daquele movimento singular e solitário.
Amilcar de Castro, uma parede branca, um balde com tinta preta, uma vassoura (uma vassoura!) e eu diante de uma verdadeira criação artística!
Depois, retornei entre os convivas com quem brindei vinhos dionisíacos e palavras poéticas. Estávamos todos em estado de festa. Havia muita gente: familiares, artistas, jornalistas, críticos, etc.
Amilcar aparece novamente. Uma força, além do bem do mal, além do próprio homem.
Ele se dirige a nós que representávamos Paraisópolis.
Amilcar de branco. Amilcar com os cabelos branquinhos, branquinhos. Amilcar está feliz com nossa presença.
Fotografei Amilcar contra a luz do meio-dia que nos banhava.
Despedimo-nos.
O gesto concreto ficou marcado nas profundezas do meu ser.
Sinto_Penso: depois daquele dia nunca fui mais o mesmo.
Ao lado da porta do jornalismo aberta por Sula muitas outras portas foram se abrindo: música, poesia, arte, vídeo, filosofia, experimentação, e o distanciamento necessário da própria cidade que levou-me a amá-la com mais intensidade e de formas diferentes.
Certamente dois dos principais encontros que tive nesta vida: Suely Gonçalves que ao me abrir as portas do jornalismo abriu também as portas para o mundo e Amilcar de Castro que com um só gesto abriu portas em minha sensibilidade, imaginação e pensamento.
Numa destas tardes de trabalho, Sula disse-me: - "você vai junto com a Comitiva de Paraisópolis na inauguração do ateliê de Amilcar de Castro em Nova Lima'.
& lá estava eu num lugar lindo, com muito verde, pássaros, sol e céu azul, com centenas de obras de Amilcar de Castro.
Afasto-me por um momento do pequeno grupo de paraisopolenses e caminho pelo ateliê de ferro e vidro, entro e saio de salas até que, de repente, presencio Amilcar de Castro no exato momento em que executa uma obra.
Que força, que potência! Algo muito forte atravessou a membrana da realidade. Algo que era real mas não existia na realidade do ato de criação.
Jamais esqueci daquele gesto preciso, daquele movimento singular e solitário.
Amilcar de Castro, uma parede branca, um balde com tinta preta, uma vassoura (uma vassoura!) e eu diante de uma verdadeira criação artística!
Depois, retornei entre os convivas com quem brindei vinhos dionisíacos e palavras poéticas. Estávamos todos em estado de festa. Havia muita gente: familiares, artistas, jornalistas, críticos, etc.
Amilcar aparece novamente. Uma força, além do bem do mal, além do próprio homem.
Ele se dirige a nós que representávamos Paraisópolis.
Amilcar de branco. Amilcar com os cabelos branquinhos, branquinhos. Amilcar está feliz com nossa presença.
Fotografei Amilcar contra a luz do meio-dia que nos banhava.
Despedimo-nos.
O gesto concreto ficou marcado nas profundezas do meu ser.
Sinto_Penso: depois daquele dia nunca fui mais o mesmo.
Ao lado da porta do jornalismo aberta por Sula muitas outras portas foram se abrindo: música, poesia, arte, vídeo, filosofia, experimentação, e o distanciamento necessário da própria cidade que levou-me a amá-la com mais intensidade e de formas diferentes.
Certamente dois dos principais encontros que tive nesta vida: Suely Gonçalves que ao me abrir as portas do jornalismo abriu também as portas para o mundo e Amilcar de Castro que com um só gesto abriu portas em minha sensibilidade, imaginação e pensamento.
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