quinta-feira, 25 de junho de 2015

terça-feira, 16 de junho de 2015



Afim

porque não há fim &
é porque não há fim que
estamos a fim de arte &
por isso temos afinidades
que nos colocam sempre
a fim de mais & mais arte
pois não há fim que pode
findar toda arte sem fim &
assim para mim o fim da
arte é não ter começo &
também não ter um fim,
é verdade: importa sim
estejamos todos a fim &
sejamos também afins &
assim sem começo, meio
& nem fim encontremos
na nossa finitude o infinito
& fazendo enfim da arte
nossa vida e da vida uma
verdadeira obra de arte

enfim ...


:: O dia em que conheci Amilcar de Castro :::

Meu primeiro trabalho como jornalista foi naquele que muita gente considera como o principal e mais bem feito jornal que Paraisópolis já teve: a Folha da Serra, dirigido pela grande e saudosa Suely Gonçalves.
 
De leitor assíduo lá estava eu, numa destas tardes lentas e mornas da cidade, recebendo na redação que funcionava na Rua São José as pautas da próxima edição ...
 
Saúde, política, cultura, entrevistas, artigos de opinião, fiz de tudo um pouco.

Numa destas tardes de trabalho, Sula disse-me: - "você vai junto com a Comitiva de Paraisópolis na inauguração do ateliê de Amilcar de Castro em Nova Lima'.

& lá estava eu num lugar lindo, com muito verde, pássaros, sol e céu azul, com centenas de obras de Amilcar de Castro.

Afasto-me por um momento do pequeno grupo de paraisopolenses e caminho pelo ateliê de ferro e vidro, entro e saio de salas até que, de repente, presencio Amilcar de Castro no exato momento em que executa uma obra.

Que força, que potência! Algo muito forte atravessou a membrana da realidade. Algo que era real mas não existia na realidade do ato de criação.

Jamais esqueci daquele gesto preciso, daquele movimento singular e solitário.

Amilcar de Castro
, uma parede branca, um balde com tinta preta, uma vassoura (uma vassoura!) e eu diante de uma verdadeira criação artística!

Depois, retornei entre os convivas com quem brindei vinhos dionisíacos e palavras poéticas. Estávamos todos em estado de festa. Havia muita gente: familiares, artistas, jornalistas, críticos, etc.

Amilcar aparece novamente. Uma força, além do bem do mal, além do próprio homem.

Ele se dirige a nós que representávamos Paraisópolis.

Amilcar de branco. Amilcar com os cabelos branquinhos, branquinhos. Amilcar está feliz com nossa presença.

Fotografei Amilcar contra a luz do meio-dia que nos banhava.

Despedimo-nos.

O gesto concreto ficou marcado nas profundezas do meu ser.

Sinto_Penso: depois daquele dia nunca fui mais o mesmo.

Ao lado da porta do jornalismo aberta por Sula muitas outras portas foram se abrindo: música, poesia, arte, vídeo, filosofia, experimentação, e o distanciamento necessário da própria cidade que levou-me a amá-la com mais intensidade e de formas diferentes.

Certamente dois dos principais encontros que tive nesta vida: Suely Gonçalves que ao me abrir as portas do jornalismo abriu também as portas para o mundo e Amilcar de Castro que com um só gesto abriu portas em minha sensibilidade, imaginação e pensamento.

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