segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Cama na Câmera


“Sem ensaios, sem repetição, sem fim previsto” - Marina Abramovic

Realizada na primavera de 2009, a performance "Cama na Câmera" é antes de tudo um exercício de liberdade existencial e a sugestão da possibilidade absoluta do aparentemente impossível.

O ato de colocar uma cama em plena praça pública em Paraisópolis, sul de Minas Gerais, propiciou a libertação do medo de represálias, do medo de críticas exteriores, do medo de olhares que condenassem, enfim do medo de ter medo.

Rompimento inicial com uma realidade tipicamente opressora à expressão artística, o ato levou a uma completa libertação dos próprios preconceitos.

Por mais inocente e sem sentido que pareça ser, estávamos plenamente conscientes do nosso ato durante o ato. As ações não foram preemeditadas. Tudo nasceu espontaneamente perante nós mesmos, perante a tarde, perante a praça, perante os transeuntes, perante as crianças, poetas e loucos.

Só sabíamos que iríamos fazer algo e desejávamos que esse algo transcendesse o mero estar num lugar para alcançar o sentir que estávamos incorporando à arte e esta nos incorporaria, numa troca tão essencial quanto inspirar e expirar.

As pessoas nos olhavam com desejo. Havia o desejo nos olhos delas para que fossêmos mais longe. Elas de certa forma esperavam palavras, declamações, falas. No entanto, nosso silêncio verbal fazia com que tudo que náo tinha voz começasse a falar: as máscaras falaram, a cama, nossos movimentos, nossos sorrisos e grunhidos, nossos passos pelas ruas de pedra.

Assim como não existe roteiro para viver, por mais que enumeremos nossas ações e a premeditemos como imaginamos que devam acontecer, "Cama na Câmera" aconteceu da mesma forma em que vivemos e concebemos a vida, ou seja, para nós, neste momento, naquele momento, vida e arte se tocaram e se fundiram...

Através do improviso construímos nossa própria existência; no próximo segundo a fugacidade de nossos atos improvisados no tempo-espaço se eternizam em nossas mentes em forma de memória.

Somos fruto de nossos improvisos. Corremos o risco em direção ao desconhecido.

Optamos pelo uso de máscaras, assim como muitas vezes as usamos para existir em sociedade... Colocamos nossas máscaras e nos relacionamos... O ser humano talvez as use para poder ir além de si mesmo, para romper com suas frustrações, seus sonhos não realizados por medo.

Se existiu algum elemento de crítica foi justamente o uso das máscaras a partir da constatação de que em um dado momento que o ser abdica da realidade para viver uma fantasia. No plano da fantasia faz e diz coisas que nunca seria capaz...

Crítica esta voltada principalmente a nós mesmos, que acaba por assumir um execício profundo de auto-crítica que arranca primeiramente a máscara que envolve nossos sentimentos e depois a máscara que eclipsa o como somos. Ao atingir a consciência de e do que somos, partimos para um processo externo de resignificação de nós mesmos.

Experimentamos e somos o todo tempo experimentados. Com "Cama na Câmera" essa sensação se radicaliza, pois colocamo-nos como protagonistas da vida, da minha vida, da vida dela, da vida dele, de todas as vidas que cruzaram por segundos com nossa vidarte.

Agora podemos existir em função de nós mesmos. Camas não são só para dormir.

Um comentário:

  1. "Somos fruto de nossos improvisos. Corremos o risco em direção ao desconhecido."

    muito bom o texto e a pratica que se proporam a fazer experimentalmente.. fiquei aqui imaginando o processo, mas vou ver o vídeo, vou fazer em casa, na rua, em mim, no mato.. expandir processos..

    parabens!

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